Se você já entrou em uma loja de surf, sabe que o lugar tem uma atmosfera própria. O cheiro de parafina, as pranchas na parede, a conversa sobre as condições do mar e o papo que rola entre quem trabalha ali. Não é uma loja qualquer. Nunca foi.
A loja de surf é um dos poucos ambientes do comércio moderno onde o produto e o estilo de vida são inseparáveis. Quem vende entende o que fala. Quem compra quer mais do que um objeto: quer fazer a escolha certa, com a orientação de quem conhece o mar.
A Califórnia dos anos 1950: onde tudo começou
O surf existia muito antes das lojas. As primeiras pranchas foram levadas do Havaí para a Califórnia no início do século XX e, por décadas, os surfistas construíam seus próprios equipamentos ou importavam tudo do arquipélago. Não havia um comércio organizado: era uma cultura de nicho, praticada por um grupo pequeno de entusiastas na costa do Pacífico.

Isso mudou nos anos 1950, quando uma geração de shapers californianos decidiu transformar a própria paixão em negócio. A Harbour Surfboards, em Seal Beach, Califórnia, é considerada a loja de surf mais antiga do mundo em operação contínua no mesmo local. Fundada por Rich Harbour, a marca nasceu depois que sua própria prancha foi roubada. Sem dinheiro para comprar outra, ele decidiu fazer a sua. O resultado foi bom o suficiente para virar negócio.
Em 1952, Jack O’Neill abriu sua loja em San Francisco e criou o wetsuit para estender a temporada de surf nas águas geladas do pacífico. Em 1954, Hobie Alter abriu sua operação em Dana Point, enquanto Nancy Katin fazia o mesmo em Surfside. Em 1957, a Jack’s Surfboards abriu em Huntington Beach. Em poucos anos, a costa californiana já tinha dezenas de lojas, cada uma com personalidade própria, refletindo o shaper que a fundou e as ondas que atendia.
Mais do que uma loja
Essas lojas não vendiam apenas pranchas. Vendiam um modo de vida. Em um momento em que o surf era contracultura, praticado por jovens que não se encaixavam nos padrões da América conservadora dos anos 1950, a loja de surf era o ponto de encontro da tribo. Um lugar para trocar informação, discutir as condições do mar, conhecer quem estava shapeando, enfim…
Os anos 1980: quando a loja de surf virou negócio no Brasil

A década de 1980 marca o momento em que o surf brasileiro se institucionaliza como mercado. Em 1982, Alfio Lagnado criou a Hang Loose, a primeira marca de surfwear genuinamente brasileira. Em 1986, o Hang Loose Pro Contest trouxe ao Brasil a primeira etapa do circuito mundial de surf, em Florianópolis.
Com as marcas vieram as lojas. O modelo californiano chegou ao Brasil com algumas décadas de atraso, mas desembarcou com toda a força de uma cultura que já estava consolidada no país. As lojas de surf brasileiras dos anos 1980 seguiam o mesmo princípio das pioneiras de Huntington Beach: eram espaços de comunidade, e não apenas de comércio.
O que diferencia uma boa loja de surf

Com a popularização do surf, qualquer loja de esportes passou a vender pranchas, leashes e parafina. O produto ficou acessível. O conhecimento, não.
O que sempre diferenciou as melhores lojas de surf nunca foi apenas o estoque, mas a qualidade da orientação. De Hobie Alter, em Dana Point, aos shapers independentes que abriram suas próprias operações, o valor central de uma loja de surf de verdade sempre foi o mesmo: ajudar o surfista a encontrar o equipamento certo para o seu tipo de surf.
A Surfboards Lab dentro dessa história
Em 2017, Pedro Viganó começou a revender pranchas de atletas profissionais a partir do próprio apartamento, em São Paulo. Não havia showroom nem estrutura de e-commerce. Havia pranchas de Victor Bernardo, Herbert Moreno, Jessé Mendes e Caio Ibelli armazenadas em casa, além de vendas feitas por grupos no Facebook, marketplaces e Instagram.
O projeto se chamava Board Garage. A lógica era simples: facilitar a vida de atletas profissionais que viajavam constantemente e não tinham tempo para negociar os próprios equipamentos, ao mesmo tempo em que geravam retorno financeiro para ajudar a custear as viagens do circuito. Era um serviço que o mercado simplesmente não oferecia.
A demanda cresceu. O Board Garage expandiu para operações por consignação, incorporando pranchas de clientes e estabelecendo parcerias com shapers ligados aos atletas. Em 2022, por uma questão societária, o projeto se desfez. Pedro seguiu em frente. E foi com essa clareza sobre o que o mercado precisava que ele fundou a Surfboards Lab.
A Surfboards Lab não é uma loja de esportes que vende surf. É uma boardshop especializada, com curadoria técnica, atendimento personalizado e relações genuínas com os shapers e atletas que definem o surf de performance no Brasil e no mundo.
Caio Ibelli e Mateus Herdy não estão na Surfboards Lab por contrato. Estão porque confiam no que a loja representa: o mesmo princípio que Jack O’Neill aplicava em San Francisco nos anos 1950 e que Hobie Alter construiu em Dana Point. Conhecimento antes da venda. Transparência antes da meta.



